Ponto final.
Toda vez que uma luz é acesa, existe uma luz que é apagada em algum outro lugar. E em algum lugar alguém está voltando para ficar, em algum lugar alguém está fazendo planos para sair. Deixando para trás, dando adeus. Leve um sorriso como abrigo e deixe detalhes, como pregos afiados, perfurarem meus velhos pensamentos. A memória irá enferrujar-se e se desgastar em listas de tudo o que você me deu: uma camisa amarela enorme, um livro de um cavaleiro inexistente, um mapa do seu corpo, as melhores partes da solidão. O outono avança e o verão...
um delírio a parte
- E você, por que tanta preocupação?
(Porque eu já não sei mais como sair desse labirinto de sensações e só o que me resta é um constante inferno do jeito que tudo anda. Um mundo de incertezas. Há algo nesses seus olhos multicoloridos que me deixa agitado por dentro. Uma inquietação anormal. Então eu me preocupo com o depois, porque o agora já não consigo aproveitar direito e por mais que você esteja perto demais, sempre me parece muito distante da onde eu gostaria que estivesse. Ou provavelmente eu me preocupe só com o fato de que, talvez, nunca iremos além do ponto que...
A flecha do tempo
Carregou consigo um maço de baralho e fichas coloridas, um tabuleiro de xadrez e todas as intensas e minuciosas discussões sobre os menores e irrelevantes assuntos. Sua voz macia perguntando se tudo estava bem, sua voz fora do tom quando revoltado e seus fortes movimentos de desaprovação. Todas as discordâncias enfáticas com o máximo de certeza, mas mesmo assim, sempre aberto a ser convencido. Um livro de tirinhas do Calvin e Hobbes e uma linda mania estrondosa de resistir aquilo que lhe corroia por dentro. 6 anos divididos em pequenas batalhas internas e seriados ...
um pouco sobre pedalar
Demorei um pouco para aprender a pedalar numa bicicleta sem as rodinhas de trás, eu tinha 7 anos e me recordo facilmente dos meus primeiros 100 metros livres delas. No dia, a seleção brasileira de futebol goleava a da Bolívia por 6x0, era inverno e pralém do frescor que fazia, aquela sensação de um vazio gélido no estômago ainda tomava conta de mim enquanto eu descia lentamente e pedia pro meu pai me empurrar denovo, porque não acreditava no que tava conseguindo. Que finalmente estava me livrando daquele ingênuo peso e agora eu era um molequinho liberto pra pedalar sozinho...